paulo de jesus - 2018
Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto, Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve, Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza, Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!
Alberto Caeiro, in « O Guardador de Rebanhos – Poema XLIII » Heterónimo de Fernando Pessoa